Entrevistas
Entrevista com Andrew Whittaker

Por: Willian Menq | 06 de janeiro de 2012
 
 

1. Comente um pouco sobre você e seu trabalho.

Nasci em Leamington, na Inglaterra na década de 60. Desde os sete anos de idade fui influenciado pelo meu pai, que também era observador de aves. Aos onze anos meu pai me levou para fazer um curso de anilhamento com o Dr. Clive Minton, que me tornou anilhador profissional e me levou a diversas expedições para fazer marcação das aves. Meu primeiro trabalho como ornitólogo anilhador sênior foi com aves migratórias em Israel. Depois em Sandwhich Bay Bird Observatory (Inglaterra), Sabah (Borneo), Long Point Bird Observatory (Canada), Fair Isle Bird Observatory (Escócia). Em 1987 fui chamado para trabalhar como voluntario por três anos em Manaus, AM no projeto da WWF/Smithsonian Institute (projeto do Dr. Thomas Lovejoy no PDBFF/INPA), sendo que no segundo ano assumi a coordenação de aves do projeto.  Em 1990 comecei a trabalhar como guia de observadores de aves em todo o Brasil, primeiro em uma empresa americana de ecoturismo e em seguida fundei a primeira empresa especializada em observação de aves no Brasil, a Birding Brazil Tours (veja mais em www.birdingbraziltours.com e na pagina da Birding Brazil Tours no Facebook). Nesta época, não existia a prática de observação de aves por brasileiros e nem guias no Brasil para os observadores estrangeiros (birdwatchers) - posso dizer que fui o primeiro guia profissional de observadores de aves no Brasil. Também fui guia na América do Sul, Antártica, América Central e Europa e continuo guiando nestes locais pela Birding Brazil Tours e desde 1993 pela empresa americana Victor Emmanuel Nature Tours.

2. Comente um pouco sobre suas pesquisas (os principais trabalhos de sua carreira).

Quando eu tenho tempo entre as viagens de trabalho, publico em revistas científicas o resultado das minhas observações nas viagens como guia, principalmente sobre aves amazônicas (vocalização, taxonomia, comportamento, reprodução e migração austral). Tenho aproximadamente 900 horas de gravações de canto de aves brasileiras, todas arquivadas no British Library of Natural Sounds, em Londres na Inglaterra. Com o meu conhecimento sobre os cantos de várias sub-espécies do Brasil (principalmente da Amazônia) e vinculado como pesquisador associado no Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), estou auxiliando a resolução da taxonomia de espécies crípticas. No MPEG eu trabalho junto com o Dr. Alexandre Aleixo identificando limitações taxonômicas de aves amazônicas. Em outros dois projeto ambiciosos, eu e outros ornitólogos publicamos o DVD-ROM Vozes da Amazônia Brasileira (editora INPA, esgotado) e Aves do Brasil - Vozes e Fotografias (a venda no site da editora Avis Brasilis).Também estou escrevendo junto com o Dr. Kevin Zimmer um guia de identificação de aves do Brasil, que será publicado pela Princeton University Press, EUA.     

3. Como você começou a se interessar por aves?

Meu pai percebeu meu interesse em observar qualquer coisa que voa como aviões, borboletas e pássaros. Então comprou um binóculo de presente e me associou a Young Ornithologist Club quando eu tinha sete anos. Olhando as aves com o binóculo fiquei encantado e aos onze anos cheguei a construir 50 caixas para ninhos dos pássaros e coloquei em árvores na mata perto da minha casa. Duas a três vezes por semana eu checava e anotava todos os dados pelo “nest record scheme” do British Trust for Ornithology. Meu pai foi um grande incentivador e companheiro e saiamos para observar as aves onde morávamos em Sutton Coldfield, em outros locais de West Midlands e da Inglaterra e nas nossas viagens de férias pela Europa.

4. Qual o momento mais marcante de sua carreira?

Sem dúvida foi quanto tive a alegria de descobrir um gavião novo para a ciência, o Micrastur mintoni.

5. Dentre as aves, qual sua espécie favorita?

São tantas espécies de aves que é difícil eleger uma favorita. Se for para escolher, então escolheria o gênero Micrastur. Estes gaviões são muito mal conhecidos, misteriosos e os cantos são fortes e encantadores, além de serem os primeiros escutados quando esta amanhecendo na floresta. Sempre quando escuto um Micrastur fico emocionado!

6. Graças a seu grande conhecimento na vocalização de aves, você descobriu diversas novas espécies e adicionou mais 16 aves para a lista brasileira, quais são essas espécies?

 Espécies novas:

Micrastur mintoni (Cryptic Forest-Falcon)

Suiriri islerorum  (Chapada Flycatcher)

E tem outras espécies que estou terminando de descrever!

Espécies adicionadas para a lista brasileira:

Micrastur buckeyi (Buckley’s Forest-Falcon)

Crypturellus atrocapillus (Black-capped Tinamou)

Coccyzus erythropthalmus (Black-billed Cuckoo)

Coccycua pumila (Dwarf Cuckoo)

Cypseloides cryptus (White-chinned Swift)

Chaetura pelágica (Chimney Swift)

Eubucco tucinkae (Scarlet-hooded Barbet)

Celeus spectactablis (Rufous-headed Woodpecker)

Myrmotherula sunensis (Rio Suno Antwren)

Myrmoborus melanurus (Black-tailed Antbird)

Percnostola lophotes (White-lined Antbird)

Formicarius rufifrons (Rufous-fronted Antthrush)

Conioptilon mcilhennyi (Black-faced Cotinga)

Heterocercus aurantiivertex (Orange-crowned Manakin)

Pipra chloromeros (Round-tailed Manakin)

Tyrannopis sulphurea (Sulpher-bellied Flycatcher)

Pseudocolopteryx acutipennis (Subtropical Dorodito)

Cacicus oseryi (Casqued Oropendola)

Sporophila luctuosa (Black-and-white Seedeater)

Espécies redescobertas:

Hemitriccus inornatus (Pelzeln’s Tody-Tyrant)

Nonunula amouracephala (Chestnut-headed Nunlet)

Tityra leucurus (White-tailed Tityra)

7. Em 2002 na Floresta Amazônica você descreveu uma nova espécie de ave: o falcão-críptico (Micrastur mintoni). Como você se sente em ter descrito uma nova espécie para a ciência? Conte um pouco sobre essa emocionante descoberta.

No dia 28 de outubro de 1997, às 05:20 da manhã eu estava em uma torre de observação com vista para a copa das árvores em Caxiuanã, PA. Eu ouvi o Micrastur, mas com um canto diferente e fiquei intrigado. Sabia que era uma espécie nova, assim imediatamente liguei o gravador e registrei o canto deste bicho. Depois retornei para coletar um espécime, comparei indivíduos de museus e fiz muitas gravações do Micrastur novo, M. gilvicollis e M. ruficollis para assegurar que se tratava de uma espécie nova.  Em homenagem ao Dr. Clive Minton, meu primeiro mestre com as aves, nomeei o gavião de Micrastur mintoni.

8. Através de exemplares de Museu, descobriu-se que o Micrastur mintoni possui uma população disjunta na Mata Atlântica do sudeste do Brasil (Bahia e Espírito Santo). Você acredita que ainda exista M. mintoni na Mata Atlântica?

O último registro de Micrastur mintoni na Mata Atlântica foi há muito tempo atrás em 1933, onde um macho foi coletado em Cachoeira Grande, Itabuna (Sul da Bahia) por Olivério Mário de Oliveira Pinto. Eu acredito que com bastante esforço de amostragem nas grandes manchas da Mata Atlântica preservadas ao sul da Bahia e no Espírito Santo (ao norte do rio Doce) e possível redescobrir esta importantíssima população.

9. A Floresta Amazônica possui uma biodiversidade incrível, só de aves já foram catalogadas quase 1,3 mil espécies na bacia amazônica. Você acredita que nela ainda possam existir mais aves não descritas pela ciência?

Sim, com certeza existem espécies desconhecidas. Muitas regiões da Amazônia são de difícil acesso e a comunidade de aves é tão rica que é preciso meses e até anos para conhecer bem a avifauna local. A região mais complexa do mundo e no interflúvio Madeira-Tapajós, onde tem vários pequenos rios delimitando a distribuição de espécies de aves de terra-firme (inclusive espécies novas de outros grupos, como por exemplo de primatas). Atualmente estou trabalhando com colegas na descrição de oito espécies novas de aves para a Amazônia. E com bastante empenho dos ornitólogos, espécies mal conhecidas serão reavaliadas taxonomicamente e serão encontradas muitas espécies novas neste bioma. 

10. Que mensagem você daria aos jovens estudantes de biologia que pretendem seguir carreira no estudo de aves?

Estudar ornitologia no Brasil e principalmente na Amazônia é fascinante. Atualmente estamos precisando de muitos estudantes esforçados e dispostos a ir a campo na Floresta Amazônica, comparar cantos, morfologia, peles de museus, estudar filogeografia e revisar a bibliografia. Somente com muitos estudantes e profissionais empenhados conseguiremos conhecer todas as aves do Brasil, pois muito está para ser descoberto! Se você estudante gosta de aves, tem paciência e empenho para trabalho de campo na Amazônia, tem também uma boa possibilidade de contribuir para o conhecimento da avifauna do Brasil. Boa sorte!

 

Andrew Whittaker
Birding guide, Ornithological consultant and Nature photographer
Birding Brazil Tours at Facebook