Entrevistas
Entrevista com Marco Granzinolli

Por: Willian Menq | 22 de setembro de 2010
 
 

Olá Marco Granzinolli tudo bem, obrigado por ceder essa entrevista para o Aves de Rapina BR.

Inicialmente pode nos dar um esboço sobre você (sua carreira, instituições em que estudou, cidade em que nasceu e onde vive atualmente).

Primeiramente gostaria de agradecer ao convite, é um prazer imenso poder dar um pouco de contribuição e ajudar na difusão de informações sobre esse magnífico grupo, as Aves de Rapina. Eu nasci em Santana do Deserto, uma pequena cidade mineira na divisa com o Estado do Rio de Janeiro. Pelas próprias características da cidade e, também por freqüentar a zona rural, sempre tive contato com os animais e as plantas. Desde criança tive interesse pelos animais, pensava em ser veterinário, mas no segundo grau, me encantei com as relações biológicas.

Assim, ao término do segundo grau ingressei no curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF, após a graduação fiz mestrado em Ecologia pela Universidade de São Paulo - USP. Em 2004, entre o mestrado e o doutorado, fui “biólogo visitante” do New South Wales State Forest, em Sidnei na Austrália, na verdade fui aprender a técnica de rádio-telemetria, e também, tive a oportunidade de conhecer diversos projetos na área de ecologia, principalmente os que envolviam o manejo em parques explorados/manejados pelo Estado. Entre 2005 e 2009 fiz o doutorado em ecologia pela USP, sendo que em 2007 passei um período na Cornell University, nos Estados Unidos.

Atualmente moro na cidade de São Paulo e atuo na coordenação de projetos da Probiota Consultoria Ambiental. Adicionalmente, sou colaborador do Laboratório de Ecologia de Aves da USP, coordenado pelo Prof. José Carlos Motta Junior.

Como iniciou sua carreira como biólogo? Como começou a se interessar pelas aves de rapina?

Logo após ingressar na universidade, tive a felicidade de conhecer e estagiar com o Prof. Alberto Resende Monteiro, que acabara de voltar da Espanha, onde fez o seu doutorado com aves de rapina. Durante toda a graduação, de uma forma ou de outra, participei de projetos aves de rapina e aves em geral. Paralelamente, fiz dois estágios em outras áreas, que serviram para concretizar ainda mais a minha escolha pelas aves de rapina. Foi nessa época que descobri também que a relação biológica que mais me atraia era a predação. Assim, não tive dúvida em decidir, queria mesmo trabalhar com as Aves de Rapina.

Fale um pouco sobre suas pesquisas, as principais já realizadas.

No mestrado trabalhamos com Ecologia Trófica de Aves de Rapina (número de presas consumidas, biomassa, seleção de presas, variação sazonal na dieta e respostas funcional e numérica).  No doutorado abordamos a questão do uso e a seleção de hábitat em uma paisagem heterogênea (áreas naturais, pastagens e plantações). Quais os efeitos da alteração dos ambientes (substituição das áreas naturais por pastagens, plantações) na taxocenose dos Falconiformes, incluindo as espécies comuns e generalistas. Adicionalmente, e de maneira complementar, realizamos estudos de área de vida (requerimento de hábitat) por meio da rádio-telemetria convencional – VHF. Nesse mesmo contexto, realizamos juntamente com o Dr. Ricardo Garcia Pereira (atualmente na University of  Michigan) um estudo pioneiro sobre os efeitos causados (estresse) pela captura e pelo transmissor de rádio-telemetria. Para tal, analisamos a variação hormonal por meio de um método não invasivo, a utilização de fezes.

Atualmente, na Probiota temos desenvolvidos trabalho com rádio telemetria convencional e por satélite, visando conhecer área de uso, seleção de hábitat, deslocamentos regional e comportamento de algumas espécies de aves de rapina.

Dentre as aves de rapina qual a (s) sua (s) favorita (s)?

Bem, se tiver que escolher, acho que ficaria com duas: a águia-cinzenta (Harpyhaliaetus coronutos) e o gavião-pato (Spizaetus melanoleucus).

Em seus trabalho de campo, qual foi a experiência mais marcante (ou cena mais emocionante presenciada)?

Tiveram algumas, mas certamente a captura da águia-cinzenta (aparentemente a primeira de um indivíduo sadio no mundo) e depois o manuseio, a colocação do  transmissor por satélite e soltura foi uma das mais marcantes. Infelizmente, foi também uma das mais decepcionantes, pois 42 dias após o início do monitoramento a águia foi encontrada perto de uma rodovia com as penas quebradas e com fragmentos de chumbos (tiros de espingarda) pelo corpo. Por sorte a águia não morreu, está em recuperação e após a muda anual das penas, provavelmente em março de 2011, iremos retornar com ela para a natureza. É muito triste saber que ainda é bastante comum a perseguição das aves de rapina.

A população do gavião-pega-macaco (subspécie: S. tyrannus tyrannus) da mata atlântica, encontra-se ameaçado de extinção em praticamente todos os estados em que ele ocorre, enquanto a população amazônica (S. tyrannus serus) encontra-se fora de perigo. Essa foi uma das razões dele não ter sido incluído na ultima lista nacional de espécies ameaçadas, caso parecido acontece com várias outras aves de rapina. O que acha disso? Concorda que deveria ser levado mais a sério a questão das subespécies nas listas vermelhas?

O critério adotado pelo grupo que elaborou a lista nacional das espécies ameaçadas foi aquele proposto pela IUCN, logo, consideraram a espécie para todo o território nacional. É isso mesmo, a subespécie da Mata Atlântica deveria constar na categoria vulnerável. A constante fragmentação e redução das áreas de florestas resultam na perda do principal hábitat utilizado pela subespécie e, assim, vem reduzindo a área de ocorrência da mesma na Mata Atlântica. Estamos falando de um gavião que ocupa o topo de cadeia e que requer grandes áreas, principalmente florestas em bom estado de conservação, para a manutenção de uma população viável.  Temos obrigação de conservar a população extra-amazônica!  O Plano de Ação Nacional para a Conservação das Aves de Rapina, elaborado pelos especialistas em aves de rapina juntamente com técnicos do ICMBio/IBAMA em 2008, retrata bem esta situação.

Nas últimas décadas, florestas tem sido derrubadas para dar lugar às atividades agrícolas ou a plantações com Pinus, em contraste a isso algumas espécies vem sendo retiradas das listas vermelhas por não apresentar risco de extinção. Continuando do jeito que estamos, como você vê o futuro para nossas aves? Acredita que teremos novas extinções regionais? Caso sim, o que é necessário para reverter esse quadro?

Se compararmos as listas de 1989 e 2003 veremos que tivemos uma redução de oito para três espécies de aves de rapina, desconsiderando as espécies DD (deficientes de dados). Nesse mesmo período a conservação/manutenção dos hábitats naturais piorou consideravelmente, é só ver os dados de desmatamento do INPE. Três espécies, Harpia harpija, Morphnus gujanensis, Spizaetus melanoleucus e Leucopternis polionotus foram retiradas da lista, enquanto outras duas passaram de ameaçadas para DD, Falco deuroleucus e Accipiter poliogaster. Pessoalmente acredito que mesmo considerando os critérios da IUCN, pelo menos mais duas – três espécies deveriam figurar na lista atual, como por exemplo, o Morphnus, que segundo as nossas simulações tem menos de 1.500 indivíduos na natureza. Acredito que um dos maiores problemas da lista é a não consideração das espécies DD, esta categoria deveria ser considerada ou mesmo receber uma atenção especial por parte dos pesquisadores, agências de pesquisas e governamentais.

Sim, as alterações dos hábitats têm reflexo direto no grupo. Uma das conclusões de minha tese de doutorado é que mesmo as espécies comuns e generalistas são afetadas pela substituição das áreas naturais pelas monuculturas. Até mesmo o cararaca, o gavião carijó, o acauã. Veja o link da tese http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/41/41134/tde-16072009-163754/

Eu de maneira geral sou otimista, mas para determinadas espécies acho que a situação é muito complicada. Vejamos por exemplo, o Leptodon forbesi,  endêmico da Mata Atlântica de três estados do nordeste. Os remanescentes de mata são cada vez menores nessa região. Tive a oportunidade de conhecer a região e a espécie, acredito que se não forem feitos esforços efetivos, este gavião pode desaparecer para sempre. Precisamos de mais pesquisas, é urgente, e simultaneamente, como já disse, esforços efetivos de conservação que inclua também um trabalho de conscientização da população como um todo, para que a perseguição a este grupo pelo menos diminua.

É comum nos levantamentos avifaunísticos registrar-se poucas aves de rapina, muitas vezes elas são subamostradas, isso reflete a raridade das espécies? Seria necessidade de metodologias mais específicas?

É exatamente isso, muitos dos métodos utilizados em estudos de aves em geral não são adequados ou não se aplicam as aves de rapina. Mesmo dentro do grupo há métodos específicos para determinadas espécies ou grupos de espécies. Em geral, os métodos de estudos para aves de rapina distinguem-se no tempo de aplicação e no tamanho da área amostrada quando comparados a maioria dos grupos de aves. Foi lançando agora em 2010 um livro sobre técnicas de estudos com aves, e eu juntamente com o Prof. Motta Junior, tive a oportunidade de escrever um capítulo sobre aves de rapina. A mensagem que tentamos passar é exatamente esta, que os métodos para estudos de levantamento, uso e seleção de hábitat e dieta, por exemplo, são intrínsecos ao grupo.

Ah, claro que há espécies naturalmente raras de aves de rapinas, mas no caso dos levantamentos, acredito que 90% seja creditado ao método utilizado.

A ornitologia é uma área apaixonante, cada vez mais jovens biólogos e estudantes de Biologia procuram seguir nesta área, alguns por gostarem do grupo e achar as aves bonitas e melodiosas, outros com interesse real em fazer ciência e contribuir com o futuro das espécies e seus respectivos habitats. Que mensagem você diria para estes jovens que pretendem seguir carreira na ornitologia?

Que busquem seus ideais, sonhos e desejos, mesmo que tenham que superar obstáculos aparentemente intransponíveis. Acima de tudo acreditem! Leiam bastante, conversem com os mais experientes, questionem, porém, não deixe a euforia inerente de um jovem se transformar em soberba ou mesmo rebeldia. Saibam reconhecer quando erram. Lembrem-se que estamos sempre aprendendo. Ouçam e observem bastante, teste, isso é fundamental não só para um ornitólogo, mas para qualquer um que queira se aventurar com pesquisa.

 

Marco Antonio Monteiro Granzinolli