Entrevistas
Entrevista com Ruth Muñiz

Por: Willian Menq | 25 de novembro de 2010
 
 

Pesquisadora espanhola, Ruth Muñiz trabalha com aves de rapina neotropicais, em especial na conservação das Harpias na América do Sul.

Olá Ruth Muñiz, tudo bem, obrigado por ceder essa entrevista ao site Aves de Rapina Brasil, tenho certeza que servirá de inspiração para muitas pessoas.

1. Fale um pouco sobre você (onde nasceu, estudou e onde vive atualmente).

Nasci em uma cidade costeira no oeste da Espanha, em Pontedeume, na Galicia. Depois minha família e eu nos mudamos para o outro lado do país, em Algeciras, uma pequena cidade que fica à 14 km da costa Africana, no Estreito de Gibraltar (Andaluzia). Foi na Universidade de Granada (Andaluzia) que estudei Ciências Biológicas (especializando-me em zoologia). Agora estou cursando um programa de doutorado no Centro Iberoamericano de Biodiversidade (CIBIO) da universidade de Alicante. Após nove anos morando no Equador, agora divido meu tempo entre este país e a Espanha (por conta do doutorado).

2. Como você iniciou a carreira de bióloga de campo, especialmente as aves? Quais foram as principais dificuldades encontradas no inicio da carreira?

Na verdade, para muitos biólogos de campo nossa carreira não começa na Universidade, mas sim quando começamos a sentir uma atração especial pelo campo e pela natureza em geral. Sempre me recordo de estar curtindo a vida selvagem, não sei ao certo o momento. Profissionalmente, assim como muitos dos meus amigos, comecei a fazer trabalhos voluntários de todo tipo... Centros de resgate, levantamento de espécies, anilhamentos, cursos básicos para jovens naturalistas... Depois, ainda quando estudava, aprendi a treinar aves de rapina, e me envolvi em utilizar técnicas de condicionamento da falcoaria para reabilitar certas espécies ao invés de sacrificá-las, além de demonstrações educativas de vôo. Depois dessa época viajei para a Costa Rica, primeiro estudando tartarugas marinhas, e depois no Panamá, país na qual comecei a me envolver com a águia Harpia e o meio ambiente.

Na verdade não tive muitas dificuldades (não me refiro financeira) quando comecei a trabalhar como bióloga, tudo foi um processo bastante natural, uma busca do sentido do nosso trabalho no mundo da conservação, provar diferentes experiências, perguntar muito, ouvir, escutar, abrir a mente, sem dúvida essa foi a minha melhor escola.

3. Quais os trabalhos que você realizou na Espanha e no Panamá?

Na Espanha, estive integrada em um interessante processo em Andalucía, onde é relevante o papel e a participação das populações rurais (Pastores, agricultores de pequena escala, fazendeiros, etc.) para divulgar os processos de conservação da biodiversidade, em proteção de uma espécie de ave carniceira. Anteriormente, como dizia, participei em monitoramentos, levantamentos e estudos locais de distintas espécies.

4. Comente sobre o Programa de conservação da Harpia no Equador.

Com o PCAHE (Programa de Conservação da Águia Harpia no Equador) queríamos abrir as portas à ciência e à conservação de mãos dadas ao pensamento da população indígena e local. Trabalhamos sobre cinco pilares básicos:
1) Pesquisas para conhecer mais sobre essa espécie, do que ela necessita para sobreviver e o que afeta sua sobrevivência.
2) Reforçar a participação das comunidades envolvidas nos processos de gestão das áreas habitadas no âmbito da conservação.
3) Sensibilização do valor patrimonial tanto histórico (saber tradições e relações ancestrais das comunidades indígenas com a natureza) quanto natural.
4) Distribuição sobre estes processos para a população em geral
5) Gestão política e institucional da sustentabilidade nas iniciativas.

5. Qual foi o momento mais marcante da sua carreira?

Acho que foi na época que ganhei uma bolsa para ir para a Costa Rica, que era a porta de entrada para a América do Sul e em muito do que sou hoje.

6. Qual sua ave de rapina favorita?

Isso é difícil, claro.. não só gosto das rapinas em si, seu aspecto ou comportamento.. para mim é um valor acrescentado que entre elas exista um vínculo cultural ou cosmológico como os diferetnes grupos humanos. As harpias têm isso, mas há muitas outras que também possui isso.

7. O que mais te preocupa com o futuro da harpia na América Central? A população esta diminuindo, estável ou em crescimento?

Apesar de todos esses anos que levamos estudando esta espécie e sua relação com o ambiente, ainda nos falta muita informação. A população não pode aumentar se tudo que ela necessita diminui, como o habitat e alimento. Na América Central há mais pressão sobre os ecossistemas, e tudo é mais frágil que na região sul, mas os problemas em todos os lugares são muito parecidos. Me preocupa que “nada importe” e que o mundo continue seguindo seu curso olhando para o outro lado.

8. As aves, em geral, são muito admiradas por crianças e jovens estudantes. Que mensagem daria a esses jovens que desejam seguir carreira na biologia de campo?

Ser biólogo de campo é uma aventura contínua. Eu diria para nunca perder a paixão pelo que faz, porque essa será a força que te fará avançar e dar um passo a mais em tudo o que queira realizar.

 

Ruth López Muñiz
PCAH - Programa de Conservação da Águia Harpia no Equador
SIMBIOE